SINTESE EM AÇÃO 03 -ESCRAVIDÃO PÓS-MODERNA

Escrito por Super User Ligado . Publicado em SINTESE em AÇÃO

PODCAST 27 7 2019 EP01S01



Um dia eu acordei e meu domingo não estava lá. De repente, eu não tinha mais o tempo para jogar a pelada com os amigos. Soltar pipa com o meu filho. Ir à praia. Não tinha mais o dia de ir à missa, ao culto. Ler um bom livro. Ouvir uma boa música.

O único dia que eu tinha para levar minha família ao cinema, ao circo, ao teatro, ao parque também tinha desaparecido. Tinha sumido, como por desencanto, todo o pouco que eu tinha de lazer. Até mesmo o dia em que eu podia ir visitar um parente no hospital também tinha deixado de existir. Era como se Cronos, o titã que representava o tempo na mitologia grega, tivesse aparecido e devorado meu domingo como havia devorado seus filhos. A semana tinha se tornado uma imensa segunda-feira. A vida havia se tornado um moinho de moer gente.

Um dia eu acordei e tinham roubado o meu domingo. Ainda, meio atordoado, sem entender direito o que estava se passando, fui acordando, aos poucos, para uma nova realidade, a burguesia, como se já não bastasse ser a dona dos meios de produção, agora também, tinha tomado posse do calendário.

O trabalho, que tanto diziam dignificar o homem, havia assumido o controle do tempo, e todos os relógios se transformaram em relógios de ponto. O capital, que já tinha convertido as minhas horas de trabalho em mercadoria, através da mais-valia, agora, se apossava, também, da minha integridade física, mental e espiritual ao destruir o único dia da semana que era consagrado a mim. Um dia eu acordei e tinham roubado o meu domingo.

Esse dia, era dia 13 de agosto de 2019 quando o plenário da Câmara dos Deputados aprovou a medida provisória "nº 881" conhecida como a MP da liberdade econômica, que libertou a economia e encerrou, de vez, o trabalhador brasileiro na gaiola de ferro do lucro fácil. Agora, somos escravos pós-modernos, e a nossa situação é precária, pois, nesse momento, não temos quem assine a nossa carta de alforria. Essa é a nova “ordem”. Esse é o “progresso”. Esse é o Brasil de Bolsonaro.